Arquivo do mês: janeiro 2011

Thom Hogan em Torres del Paine

Thom Hogan é um renomado profissional no ramo da fotografia, especializado em produtos Nikon. Além disso, ele escreve livros, faz workshops e apresenta análises extremamente interessantes sobre o mercado da fotografia. Ou seja, se você quer se inteirar desse universo, não pode deixar de checar regularmente www.bythom.com.

Recentemente, ele conduziu um workshop na Patagônia chilena; mais especificamente, no Parque Torres del Paine, um destino excelente para fotógrafos e aqueles que admiram belas caminhadas e paisagens naturais. O site do parque traz diversas fotos e informações. Em resumo, é um local com uma paisagem espetacular, mas cujo acesso não é exatamente fácil. A rota comum inclui Punta Arenas e Puerto Natales, que são cidades pequenas, até onde eu sei.

Ainda não conheci o parque, mas há tempos essa é uma de minhas prioridades, a ponto de chegar a planejar uma viagem pra lá nesse ano. E aí entra a experiência do Thom Hogan, cuja viagem com participantes do workshop aconteceu nesse mês (lembro de ter visto essa viagem agendada há quase um ano e pensei seriamente em me inscrever!). Em resumo, houve uma greve na região e os turistas foram usados como moeda de barganha, sendo impedidos de sair por alguns dias. O Thom usa a palavra “refém”, que alguns podem achar exagerado – ninguém do grupo dele foi machucado ou diretamente ameaçado, diga-se de passagem -, mas não considero um termo absurdo considerando a situação.

Esse é o link pro artigo: http://www.bythom.com/hostage.htm

O texto é extenso, mas vale a pena. Com seu estilo provocador, as ponderações vão muito além da simples situação ocorrida, passando por uma análise econômica, ética e política.

Para quem pretende viajar pra Torres del Paine, considero a leitura obrigatória. Como ele ressaltou, nada impede que outras situações semelhantes aconteçam, considerando esse precedente. Não concordo com algumas generalizações (toda a América do Sul sendo considerada um local pouco seguro e confiável para viagens) e com o boicote que ele propõe ao Parque, considerando que os estabelecimentos lá não apoiaram a ação. Mas até entendo a indignação: ficar “preso” por dias em qualquer lugar não é nada agradpavel. Junte-se a isso a inação dos veículos de notícia e o alto custo de todo esse processo (segundo o artigo, mais de 1.500 dólares), sua reação não me surpreende.

Por que o mundo não ficou sabendo disso?! Hummm…

 

Edit: escrevi para o Thom Hogan falando sobre essa situação e fazendo o adendo de que considero o Brasil um lugar seguro pra viajar (com a ressalva de alguns lugares, obviamente), já que ele havia generalizado sua preocupação a toda a região. Ele foi muito atencioso e me respondeu que, na verdade, ele tem dito às pessoas  exatamente isso: que o Brasil realmente lhe parece a melhor opção na América do Sul, em termos de segurança e confiança. Concordo com ele :-)


Os tais 45 minutos

Há um tempo atrás – mais precisamente, nesse dia -, eu falei um pouco sobre exposições longas e prometi postar a minha foto de 45 minutos. Ao invés de apenas anexa-la aqui, vou contar a história dela.

Ela foi feita em 11 de junho do ano passado, em uma viagem que fiz com um grande amigo. Nessa foto abaixo, procurei retratá-lo em seu melhor ângulo:

Neander, no escuro e em contra-luz: seu melhor ângulo*! :-p

(*) Não, nada de “tadinho dele!”. Sim, ele mereceu. Sim, eu já comi um naco de raiz forte do tamanho de uma laranja por culpa dele. Moving on…

Fizemos uma expedição fotográfica (recomendo para os amantes de fotografia!) e, numa viagem como essa, não faltam situações para fazer imagens, considerando que você está lá exatamente para isso! Sem outros compromissos, é mais fácil planejar e aproveitar as oportunidades. Com isso em mente, definimos algumas saídas noturnas para fotografar.

No primeiro dia, fiz um banner involuntário para a Ford. Procurando fotografar o carro e o céu, não era possível planejar os outros automóveis passando, considerando que a exposição foi de 2 minutos. No fim das contas, o efeito dos farois “pintando” o fundo  ficou muito bom.

“Banner da Ford”. Em 2 minutos, já é possível perceber o movimento das estrelas.

 

Na mesma noite, continuamos com as exposições longas para capturar o movimento das estrelas. Para isso, quis um primeiro plano mais rústico, combinando com o ambiente. Essa foi de 10 minutos.

Em 10 minutos, o movimento das estrelas fica bem aparente.

 

Na noite seguinte, nova saída. Queríamos uma exposição ainda mais longa e aproveitamos o dia para pesquisar bons locais para fotografar. Achamos essa árvore que serviria para compor a imagem.

Luz do farol do carro em uma exposição longa?? Hmmm… acho que não.

 

Fazer uma foto como essa não é exatamente fácil. São necessárias várias tentativas para 1. calcular a exposição correta; 2. achar a mehor composição e o posicionamento; 3. definir o uso de luz externa, entre outros. Mesmo assim, há uma possibilidade razoável de erro em cada uma dessas variáveis.

Foto de teste para calcular a exposição correta. Uma preocupação a menos!

 

Finalmente, vamos à imagem. Considerando o tempo, não é possível fazer várias tentativas. Não pela espera em si, já que a hora passa voando se você estiver acompanhado, mas pela bateria da câmera. De fato, só tivemos uma chance para fazer a foto. A do Neander, infelizmente ficou bem manchada (alguém esqueceu de tirar o filtro ultra arranhado da lente , aí fica difícil…). A minha não manchou, mas ficou com muito ruído por causa do longo tempo de exposição (o sensor aquece e isso aumenta o ruído da imagem). O resultado colorido foi esse:

Estrelas em formato radial. Isso não é uma coincidência.

 

Para diminuir esse problema do ruído, preferi convertê-la para P&B, achei que ficou melhor.

Resultado final: 45 minutos bem utilizados!

 

Apesar das limitações, gostei do resultado! Ah, você sabia que a linha que as estrelas desenham varia de acordo com a posição da câmera em relação a elas? Usei um GPS para definir a posição, já que queria esse formato radial. É possível também que as estrelas desçam retas ou levemente inclinadas, dependendo da direção da câmera.

FotodaFoto também é ciência! :-)


FotodaTécnica: Profundidade de Campo

Na postagem “Por que sua câmera compacta não desfoca o plano de fundo?”, discutimos um pouco das limitações de câmeras compactas na separação de diferentes planos. Continuando esse tema, gostaria de explorar um pouco mais a Profundidade de Campo (Depth of Field ou apenas DOF), incluindo diversas imagens para exemplificar os possíveis elementos que a afetam.

Primeiramente, quero frisar que não há mistério. Conhecendo as possíveis variáveis que afetam a DOF, você pode manipulá-la da maneira que quiser e passa a ter um controle bem maior sobre o processo de criação de imagem.

Existem três variáveis que afetam a profundidade de campo:

1. Abertura da lente

2. Distância focal

3. Distância de foco

Vamos diferenciá-las. Abertura (aperture) da lente é literal e auto-explicativo: em termos simples, é o diâmetro da abertura que permite a entrada da luz no sensor/filme. Esse diâmetro não é fixo e pode ser controlado pelo fotógrafo. Ela é representada por um número antecedido da letra F (exemplo: F2.8, F4, F8, F11 etc). Atenção: quanto maior é a abertura, menor é o f-stop, esse número de que falei acima. Ou seja: F2.8 é uma abertura MAIOR do que F11.

Distância focal (focal distance), como discutido no outro artigo, é a distância entre o ponto de foco da lente e o sensor da câmera. Pense assim: quanto maior o “zoom”, maior a distância focal (essa definição é apenas para fins explicativos, ok? Na verdade, zoom é outra coisa, mas vamos usar esse termo porque todo mundo conhece). Exemplos de distâncias focais são 50mm, 135mm, 200mm etc.

Distância de foco (focus distance) é a distância entre o sensor/filme e o ponto de foco da câmera. Isso, claro, muda toda hora: se você foca em algo próximo – como em uma pessoa para fazer um retrato -, a distância de foco é curta; se for fotografar uma paisagem distante, a distância de foco é longa.

Sendo simples e direto (anote aí), mantidas as demais variáveis:

1. Quanto maior a abertura, menor a profundidade de campo;

2. Quanto maior a distância focal, menor a profundidade de campo;

3. Quanto maior a distância de foco, maior a profundidade de campo.

Pronto, você sabe o que afeta a DOF de uma imagem, é simples assim! Como já havia falado no artigo de câmeras compactas, elas usam uma distância focal muito pequena, o que explica a profundidade de campo tão grande que praticamente não pode ser manipulada.

Agora vamos a alguns exemplos. Para comparar as diferenças citadas acima, eu utilizei a Canon 5D, que é uma câmera Full Frame, com o sensor do mesmo tamanho das câmeras analógicas mais comuns. Ela permite um excelente controle de DOF, então fica mais fácil destacar as diferenças. Ao final eu também comparo, na prática, qual é a diferença entre uma câmera dessas e uma compacta, em termos de DOF.

Canon 5D e Canon G11

 

Inicialmente, vamos comparar uma série de aberturas: F4, F11 e F22. Repare que, quanto maior a abertuta (e menor o número), menor é a profundidade de campo. As outras variáveis foram mantidas.

Canon 5D, iso100, 1/30s, 80mm, F4

Canon 5D, iso100, 1/30s, 80mm, F11

Canon 5D, iso100, 1s, 80mm, F22

Dá pra perceber que as casas ao fundo começam a aparecer conforme diminui a abertura da lente. Para visualizar melhor, clique nas fotos.

Agora, vamos comparar a diferença causada pela mudança da distância focal. As outras variáveis foram mantidas.

Canon 5D, iso100, 1/40s, F5.6, 24mm

Canon 5D, iso100, 1/40s, F5.6, 55mm

Canon 5D, iso100, 1/40s, F5.6, 105mm

Novamente, a diferença é clara. A única alteração que fiz, nesse caso, foi aumentar a distância focal. A corrente está sempre em foco, mas repare como as casas ao fundo vão gradativamente desfocando.

Finalmente, comparemos a distância de foco. Nesse caso, a única variação consistiu em mudar o ponto de foco de primeiro para o terceiro “trem” (Tijolo? Pedra? Sei lá, vai “trem” mesmo :-)

Canon 5D, iso100, 1/13s, , 80mm, F8

Canon 5D, iso100, 1/13s, , 80mm, F8

Com o ponto de foco mais próximo, o tijolo já aparece meio desfocado, o trem do meio também. Com o foco mais distante, as casas ao fundo ficam menos borradas, o trem do meio também e o tijolo está quase igual. Você poderia achar que é porque os trens de trás estão mais próximos um do outro, mas isso é impressão causada pela perspectiva, os três estão quase equidistantes.

 

Por último, é interessante comparar também câmeras com sensores de tamanhos diferentes, mas ajustadas com configurações semelhantes:

Canon G11, iso100, 1/20s, F4, 18mm (equivalente a 82mm no padrão Full Frame)

Canon 5D, iso100, 1/20s, F4, 73mm


Procurei ajustar as câmeras da forma mais próxima possível. Há uma pequena diferença na distância focal, o que não atrapalha a comparação. Na verdade, isso até favorece a G11, dando a ela um DOF menor devido à maior distância focal. Ainda assim, dá pra perceber que a diferença é significativa.

Como falei anteriormente, não há mistério. Pode demorar um pouco para assimilar essas informações, mas depois que isso acontece, todo o processo de controle de DOF se torna automático e intuitivo. É claro que esse conhecimento não irá surpreendentemente mudar a capacidade da sua câmera, seja ela uma compacta ou DSLR. Mas pode te ajudar a reconhecer maneiras de controlar esse elemento tão importante na fotografia, usando-o a seu favor na composição de uma imagem.

Boas fotos!


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